Olhar Viajante

Uma crônica visual contemporânea

O advento das novas tecnologias de captação de imagens promoveu nas últimas décadas uma surpreendente revolução. Vivemos hoje sob a égide do império do visível. É difícil alguém, nos dias de hoje, não ter ao alcance de suas mãos algum tipo de equipamento de captura de imagem – seja uma sofisticada máquina fotográfica, um modelo compacto ou mesmo um aparelho de telefonia móvel que também agregue essa função. Para alguns, prenúncio da ruína da Fotografia enquanto manifestação artística, decorrente de banalização do “click” e, consequentemente, de uma avalanche de imagens sem qualidade e esmero estético. Para outros, uma nova perspectiva, ao promover uma nova relação entre o homem e a fotografia, agora vista menos como “arte do instante” e mais como “arte do devir”. Fotografamos a tudo e a nós mesmos de maneira frenética e muitas vezes desconexa, quem sabe, como meio de afirmar nossa própria existência. Segundo Vílem Flüsser: foi através da fotografia – e mais especificamente de sua socialização –, que a existência humana passou a abandonar a estrutura linear, própria dos textos, ou da história convencional, para assumir a estrutura do saltear quântico, próprio dos aparelhos e do tempo labiríntico que rege a vida em nossos dias.

Ana Mokarzel, apaixonada pela fotografia, é uma dentre tantas pessoas que tem sempre ao lado um aparato de captura de imagens. Movida pelo prazer de se manter em permanente movimento, Ana se lança pelo mundo coletando imagens, sensações, pensamentos. Longe dos registros estandardizados de turistas, sua atenção se dirige a detalhes inesperados, capturados numa dobra fugidia de um panorama de acontecimentos díspares – que só um olhar certeiro e atento, de alguém que se mantém em permanente movimento, seria capaz de perceber. Tímida que é, confessa que muitas vezes prefere abrir mão de seus equipamentos convencionais, para lançar mão do Iphone, para assim abandonar a posição de quem observa o mundo de longe, e se confundir a ele. E assim Ana constrói uma crônica visual de sua vida.

E por ela somos todos convidados agora a descobrir novas relações entre imaginação e realidade, destacando fragmentos, rearranjando o conjunto em novas aglutinações de forças, de modo a alcançar um mundo que passará assim, a ser reconhecido por nós como “singular” e “pessoal”.  Um caleidoscópio de imagens no qual podemos fruir nossa liberdade de criação, em um campo intermediário que se abre e se prolonga entre nosso devaneio subjetivo e a apreensão objetiva da realidade. Afinal, é no sonho que subsiste o liame que nos une a imagem.

Alexandre Sequeira